Temos plena consciência que uma “tenaz” se aperta à volta dos Bombeiros de Portugal, sofrendo sistematicamente pressões negativas, nomeadamente, através da incerteza dos apoios financeiros por parte das Autarquias, do irrealismo nas compensações financeiras pelos serviços prestados à comunidade, da falta de apoios diretos às Associações Humanitárias para minimizar os impactos do elevado preço do combustível e da energia e mais recentemente, os resultantes da taxa de inflação, da descontinuidade no planeamento dos pagamentos devidos pelo setor da saúde aos bombeiros, dos custos de contexto ou operacionais que não são refletidos nos valores a transferir ou nos pagamentos devidos, da crise do voluntariado que não se resolve com mais EIP ou promessas não concretizadas, da falta de enquadramento salarial e de carreira dos mais de 10.000 bombeiros voluntários com contratos de trabalho com as EDCB, entre muitas outras que se poderiam mencionar.
A maioria das questões sublinhadas foram há muito identificadas pelos Bombeiros. Seria bom que todos nós pudéssemos ler com muita atenção as principais conclusões e decisões dos últimos Congressos e tirássemos as devidas conclusões.
A primeira das quais, e a mais importante, é que temos feito o diagnóstico, mas não conseguimos encontrar o ponto de equilíbrio entre a nossa vontade e capacidade de revindicação e concretização dos nossos desejos coletivos. Este é, na nossa humilde opinião, o nó górdio que nos aperta devagarinho até ao sufoco final.
Os Bombeiros contentam-se com pouco, porque a sua humildade, molda as suas atitudes e receios. Mas, quando quisermos despertar para a realidade talvez já estejamos num estado comatoso, donde não seremos capazes de sair.
Assistimos, dia a dia, à descaraterização dos nossos bombeiros e associações, aos ataques da AGIF à capacidade dos bombeiros, à inabilidade irritante do INEM para lidar com os bombeiros, à inação desconfortável do ICNF para com os bombeiros, à vontade política para reduzir a importância histórica dos bombeiros nas situações de emergência, criando serviços, equipas ou alternativas, que querem atuar no espaço próprio dos bombeiros, vemos o definhamento da nossa capacidade de recrutamento de voluntários e dirigentes associativos, olhamos com insatisfação para as promessas não cumpridas pelas instituições políticas, procuramos encontrar entre nós os pontos de critica e não os pontos de concórdia, convivemos bem com a falta de estratégia dos sucessivos Governos para apoiar os bombeiros e associações humanitárias, aceitamos que financiamentos destinados aos bombeiros sejam integrados nos orçamentos de entidades públicas, deixando que nos entreguem as migalhas que a cada momento decidem, concordamos com diplomas que depois não se coadunam com as nossas expectativas, assistimos à retirada silenciosa da nossa identidade, comprometendo a nossa história, mas com essa humildade que nos carateriza, criticamos, falamos em voz baixa, mas vamos aceitando percorrer um caminho cheio de espinhos até ao precipício.
Se os dirigentes associativos, comandos e bombeiros, não se unirem em torno dos objetivos estratégicos na defesa deste movimento secular dos Bombeiros como um todo e, alguns, persistirem em tomar atitudes de conveniência local ou individual, temos a certeza de que os Bombeiros portugueses vão acentuar as suas dificuldades organizacionais, financeiras e de funcionamento. É tempo de união, de darmos as mãos, em nome do coletivo, sacrificando o individual, por muito que isso nos possa custar. Temos de saber resistir à neblina dos ataques diários disfarçados daqueles que, evocando a modernização, os novos tempos, as economias de escala, a profissionalização versus o voluntariado, a necessidade de se fecharem corpos de bombeiros em nome da qualidade da intervenção, entre muitas outras afirmações na “espuma” das justificações de cariz reformista.
Portugal tem de ter Federações de Bombeiros representativas dos interesses das suas regiões, Associações Humanitárias económica e socialmente estáveis, Corpos de Bombeiros dotados de material, de equipamento e de bombeiros, de mulheres e de homens motivados, orgulhosos do seu trabalho em prol dos cidadãos, que acreditem no presente e no futuro, de Elementos de Comando enquadrados, qualificados e motivados, de Dirigentes conscientes dos seus deveres e participativos, mas também com direitos, de um movimento associativo de sócios e beneméritos interessados na atividade social das Associações Humanitárias, de cidadãos que sintam que os Bombeiros, são os seus Bombeiros e que no momento em que precisarem, eles lá estarão a seu lado, dizendo “presente”.
Mas será isto uma confissão de derrota. Não, não é. É a consciencialização do estado da arte para, caso queiramos, aproveitar o momento para mudarmos a nossa forma de estar e começar a pensar estrategicamente, desenhando um percurso, curto, incisivo e claro, dizendo bem alto, o que queremos e do que não abdicamos. Simultaneamente, temos de ter a força necessária para levar por diante as medidas concretas aplicadas a cada etapa do nosso percurso.
Sem isso, daqui a 10 anos, se existirmos, vamos repetir as conclusões dos Congressos de Pombal e das Caldas da Rainha, como o podemos fazer no momento presente.
Não sendo o momento presente de bons ventos para os Bombeiros e para as Associações Humanitárias, não nos resignamos, antes pelo contrário. Vamos ter um Congresso Extraordinário em março de 2023 para a devolução da palavra aos dirigentes e comandos, aos nossos Associados, para construir os pontos de convergência indispensáveis e, porventura, traçar, como agora se diz, as linhas vermelhas que não podemos deixar ultrapassar se quisermos defender este património imaterial construído ao longo de séculos.
