Em sentido direto, filé mignon diz respeito a um bife do lombo de excelência. Na linguagem figurada que vamos utilizar diz respeito a algo que só alguns parecem ter o privilégio de fazer e de que outros são afastados ou excluídos. Isto é o que nos sabemos que tem acontecido ao longo dos anos no transporte de doentes não urgentes. Quem o negar só pode ser negacionista, para não dizer mentiroso.
O transporte de doentes não urgentes foi um desafio lançado aos Bombeiros, e também à CVP, no arranque do SNS. E assim foi até que um Governo da altura entendeu abrir o serviço a privados com base em orientações exteriores. Sobre isso, muitas explicações tentaram ser dadas, mas subsistem ainda hoje muitas dúvidas sobre essa decisão, nomeadamente, sobre a sua obrigatoriedade, de fato. Há argumentação farta sobre isso.
A concorrência, que então se pretendeu garantir ao abrir o setor, afinal nunca existiu nem existe. Na verdade, ninguém pode concorrer entre si, quando são mais as diferenças e implicações existentes do que quaisquer semelhanças. Desde logo, entre entidades que visam o lucro e outras, sem fins lucrativos, humanitárias e eminentemente sociais. Umas executam o seu trabalho, o que estritamente lhes diz respeito, e as outras, por força do seu estatuto, fazem-no muitas vezes para além do que é exigido com o manto do solidário e do humanitário por cima de todos os extras associados. Todos o sabemos e, sobre isso, não vale a pena adiantar mais.
Sobre os contratos a que uns e outros concorrem haveria também muito a dizer, mas não caberá, por agora, adiantar mais nada. Centremo-nos, contudo, noutra questão.
Uns podem recusar serviços que não estejam no seu âmbito direto e no seu figurino, à luz da contratualização efetuada em estrito senso, mas os outros são amiudados vezes solicitados também a serviços penosos e só justificados, por exclusão de partes, numa lógica de intervenção social cujos limites não estão definidos. Daí ser difícil estabelecer paralelo entre entidades diferentes. Com a agravante de agora, além de não arrepiar o erro se queira agravá-lo com a abertura ao setor privado do transporte não emergente. Isto faz-nos desenterrar fantasmas do passado.
