“São 08:00 da manhã, é sábado.
Há quem esteja a escolher o fato de banho, a toalha, o chapéu de sol e o melhor filtro do Instagram para anunciar ao mundo que “finalmente chegou o descanso”.
E depois há os bombeiros.
Os que também gostam de praia, atenção.
Também gostam de dormir, também têm família, filhos e uma vida .Não nasceram dentro de um cacifo, nem vivem lá dentro, apesar de às vezes parecer que há quem pense isso.
São 07:00 da manhã e há quem tenha trabalhado a semana inteira e, em vez de virar para a praia, vire para o CB
Há quem tenha feito piquete a noite toda e siga para o serviço seguinte com aquela cara maravilhosa de quem já nem sabe se está acordado, vivo ou apenas em modo automático.
Há quem dispense férias para o DECIR, mais uns trocos? Talvez mas é mais o amor pela farda.
As férias, aquela coisa que as pessoas normais usam para descansar, desligar, viajar, dormir mais um bocadinho ou fingir que a vida está organizada, nos bombeiros às vezes são só uma forma criativa de dizer: “Vou para o CB não sei quando volto.”
E depois ainda há quem ache que isto é tudo muito fácil.
“Ah, mas ninguém vos obriga.”
Pois não.
Também ninguém obriga ninguém a ter vergonha na cara e, no entanto, fazia falta a muita gente, nem noção essa também não abunda por aí, provavelmente nem com uma “campanha” deveria ser fácil de adquirir.
A verdade é simples, todos os dias há bombeiros que escolhem estar disponíveis para os outros, mesmo quando a própria vida fica em lista de espera.
Escolhem faltar ao almoço, escolhem chegar tarde a casa, trocam planos por ocorrências, escolhem atender o telefone quando o resto do mundo mete em silêncio.
E não, isto não é romantizar o sacrifício, a realidade é menos poética.
A realidade são olheiras.
São costas rebentadas.
São famílias fartas de ouvir “já vou”.
São filhos que aprendem cedo que a sirene às vezes ganha.
São companheiros que já nem perguntam a que horas voltamos, porque sabem que a resposta é sempre uma espécie de lotaria.
E mesmo assim há quem vá.
Às 07:00. Às 09:00. Às 12:00. Às 16:00. Às 03:00 da manhã, quando o telemóvel toca e a vontade era atirá-lo pela janela.
Vai hoje, amanhã, no feriado, no aniversário, no jantar combinado, no domingo de manhã e naquele fim de semana em que jurámos que desta vez íamos descansar
Porque ser bombeiro tem isto de absurdo cansa, mói, tira tempo, tira sono, tira paciência… e ainda assim vicia.
É um amor estranho, daqueles viciantes. Não é daqueles amores bonitos de postal.
É mais daqueles amores tóxicos que a gente sabe que devia largar, mas depois toca a sirene e lá vamos nós outra vez, todos dignos, todos empenhados, todos a dizer: “é só hoje.” Mentira….Nunca é só hoje.
E é aqui que entra a parte que muita gente gosta de esquecer.
O bem comum não aparece sozinho, não cai do céu.
Não nasce de regulamentos bonitos, Não se faz com discursos inflamados de quem gosta muito da palavra “missão”, desde que a missão seja feita pelos outros.
O bem comum faz-se com pessoas reais.
Pessoas que trabalham, que se cansam que têm contas para pagar.
Pessoas que têm dores, filhos, casamentos, divórcios, problemas, ansiedade, sono, fome e uma paciência que às vezes só sobrevive por milagre.
Pessoas que, mesmo assim, aparecem.
São 08:00 da manhã…E enquanto uns estão a decidir se levam geleira ou se compram bola de Berlim na praia, há bombeiros a vestir a farda.
Não porque não tenham mais nada para fazer.
Mas porque há uma coisa nesta vida que ou se sente, ou não vale a pena explicar.
E quem sente sabe. Sabe que isto dá cabo de nós.
Mas também sabe que há chamadas que nos lembram porque começámos.
Sabe que há dias em que juramos que vamos parar.
E há outros em que basta vestir a farda para perceber que ainda não acabou.
Portanto, sim.
São 08:00 da manhã.
É sábado.
Há quem esteja a pôr protetor solar, muitos estão a pôr a divisa ao peito.
Cada um com as suas escolhas.
Mas depois não venham dizer que o país funciona por milagre.
Milagre é haver tanta gente cansada que ainda aparece.”

