“Saberemos sempre distinguir quem serve de quem apenas se serve.
Há pessoas que nunca entram nos bombeiros para servir. Entram para usar. Usar a farda, usar o nome, usar a missão, usar as pessoas.
Não chegam por vocação. Chegam por cálculo. Olham para a instituição e veem oportunidade. Um trampolim bem colocado, com boa visibilidade e retorno garantido. Um sítio onde dá para ganhar estatuto, legitimidade e palco antes de saltar para outra coisa qualquer.
Tratam os bombeiros como um jogo de Monopólio. Avançam casas, acumulam cargos, trocam lugares, fazem contas. O objetivo não é servir. É chegar à melhor propriedade. À mais rentável. À que dá mais poder. Se pelo caminho alguém ficar para trás, paciência. Faz parte do jogo.
O quartel vira tabuleiro. A farda vira peça. A missão vira pretexto.
Usam os bombeiros para subir na vida, como se isto fosse um estágio estratégico, um degrau conveniente, um atalho social. Jogam com símbolos, com discursos e com emoções alheias. Sabem exatamente quando aparecer, quando falar, quando se emocionar. Sabem construir narrativa. Sabem vender-se. Sabem sair por cima.
O problema não é ambição. O problema é usar uma missão inteira para se alimentar.
Servir não é aparecer. Servir não é contar histórias. Servir não é transformar a missão em argumento.
Servir é ficar quando já não é cómodo. É aguentar quando não há palco. É continuar quando a missão deixou de servir para subir.
E é aqui que muitos perdem o interesse.
Porque quando deixa de dar palco, deixa de dar jeito. Quando deixa de render, deixa de ser missão. Quando deixa de abrir portas, passa a ser peso.
Então muda-se de tabuleiro. Troca-se de casa. Avança-se para a próxima jogada.
Há quem abandone porque já não tem interesse.
E há quem fique, mesmo sem interesse nenhum, a desgastar, a corroer, a destruir mais um pouco.
Porque o cargo ou a farda dão nome, dão poder e servem de escudo.
Os bombeiros ficam para trás, como ficam sempre. A segurar o jogo que outros já abandonaram. A pagar as consequências de decisões que não tomaram. A limpar o estrago de quem jogou para ganhar e saiu a tempo.
Parem de fazer dos bombeiros um jogo de Monopólio.
Aqui não há propriedades para conquistar.
Há pessoas para cuidar.
Há casas para sustentar.
Há uma missão que não pode ser usada como trampolim.
Os bombeiros não são degrau. Não são moeda. Não são estratégia de carreira.
E quem entra a pensar na próxima casa nunca entrou para ficar nesta.”
Texto e Imagem | Ariana Ribeiro

