Há municípios onde ser bombeiro dá direito a apoios concretos: seguros, isenções, benefícios sociais, transportes, saúde, educação, apoio à habitação, acesso a equipamentos municipais.
E depois há outros onde o pacote é mais tradicional: discurso no aniversário, fotografia junto à viatura, medalha da praxe e aquela frase maravilhosa “vocês são fundamentais”. (Muito bonito. Pouco útil, mas muito bonito!)
É quase como se o fumo pesasse menos num concelho do que no outro. Como se uma PCR fosse mais leve quando o município ainda está a “estudar o assunto”. Como se a chamada às três da manhã viesse com menos sono só porque aquele CB não calhou no concelho certo.
A diferença entre corpos de bombeiros não devia depender tanto da boa vontade de quem tem o rabo sentado na cadeira naquele mandato. Hoje há apoio porque alguém achou bonito. Amanhã muda o executivo e lá vamos nós outra vez para o “vamos analisar”, essa expressão maravilhosa que em Portugal quer dizer: senta-te, confortável bebé um copo, e não envelheças à espera! (Ou seja, vai demorar!)
Não faz sentido que um bombeiro tenha reconhecimento prático num concelho e outro, com a mesma farda e o mesmo capacete, receba pouco mais do que paleio institucional.
Que se apoiem os bombeiros, claro. Mas que se apoiem com critério e justiça ( e que o critério seja todos por igual!) Não pode haver CB quase em versão premium num concelho e CB em versão básica no outro. Isto não é tarifário de telecomunicações. Não há “CB gold”, “CB plus” e “CB só chamadas urgentes”. Há corpos de bombeiros. Ponto.
O fogo não escolhe quartel com benefícios. O acidente não pergunta se há regulamento municipal. A PCR não espera por deliberação camarária. Quando toca a sirene, a população quer é que alguém meta o capacete, suba para a viatura e apareça.
E os bombeiros aparecem.
Mesmo quando o reconhecimento fica no paleio. Mesmo quando a ajuda fica para “um dia destes”. Mesmo quando o apoio real depende do concelho, da cor política, da carteira municipal ou da vontade de quem manda naquele momento.
É aqui que está o veneno, uns CB’s recebem condições, outros recebem palmadinhas nas costas. E palmadinhas, como se sabe não seguram operacionais.
Que se aplaudam os municípios que avançam. Fizeram bem. Mas isso não pode servir para fingir que está tudo resolvido.
Porque bombeiro não é figurante de cerimónia, decoração de desfile nem fotografia para boletim municipal.
Bombeiro é quem aparece quando os outros fogem, ligam ou rezam.
E talvez fosse boa ideia começarem a tratar esta gente como deve ser antes que um dia toque a sirene e já não haja ninguém para meter o capacete.
Texto e Imagem | Ariana Ribeiro

