Lisonja ou desconsideração

A não referência aos Bombeiros, em momento algum, no anúncio oficial recente do “112 transfronteiriço” pode ter várias leituras.

A primeira leitura poderá ser de lisonja, ou seja, tal é o impacto e a importância reconhecida dos bombeiros no socorro pré-hospitalar em Portugal que dispensa qualquer citação ou referência pela relevância intrínseca.

A segunda leitura poderá ser de desconsideração, ou seja, apesar do impacto e da importância sabida dos bombeiros no pré-hospitalar, tal é a garantia de que vão estar sempre presentes que isso pode suscitar a alguns irrelevante referi-los.

O balanceamento entre as duas leituras, e outras que se queiram entremeses fazer, leva a que se pondere realmente entre a realidade e a teatralidade das coisas. A realidade é clara, transparente e conclusiva. A teatralidade é o que é, difusa, sombreada, entre cortinas e furtiva.

Em abono da verdade, mais que demonstrada, os Bombeiros garantem, satisfaça uns ou não, 90 por cento do socorro pré-hospitalar em Portugal. Trata-se do maior dispositivo existente e permanente em que assenta o socorro no nosso país.

Nas redes sociais ou nas revistas cor-de-rosa as pessoas são famosas por serem famosas. Mas isso não belisca nem escamoteia que outras sejam famosas exclusiva e verdadeiramente pelo que são, de facto, pelo que fazem, pelas funções e missões que desempenham, pelo sucesso delas em prol do bem-estar, da felicidade e da vida dos concidadãos. Trata-se da diferença entre os que se fazem parecer ser e os que o são efetivamente, fale-se ou não deles.

Se o “112 transfronteiriço” veio para ficar, e bem, será bom lembrar que há muito isso acontece, porventura sem as parangonas que agora merece. Na raia luso espanhola há muito que se processa esse tipo de socorro assumido de modo informal e local. É a realidade ancestral de entreajuda vivida há séculos entre as comunidades fronteiriças dos dois países agora catapultada para outro nível que, agora, mais não faz que reconhecer as boas práticas continuadas.

A lisonja que inevitavelmente deve merecer a ação dos bombeiros a toda a linha e em todas as funções e missões suscita, por vezes, atitudes, algo estranhas, de interesses corporativos exacerbados que, só por si, a sã convivência e o respeito mútuo não aceitam.

O senhor Lázaro, dirigente sindical do INEM, afirmou recentemente que há uma destrinça entre portugueses, de primeira e de segunda. O mesmo defende o alargamento dos técnicos de emergência pré-hospitalar a todas as ambulâncias que participem no sistema. Ainda segundo ele, “é a única forma de reduzir as assimetrias entre as cidades do Litoral e do Interior, que permitem que existam portugueses de primeira, atendidos pelo INEM, e de segunda, atendidos pelos nossos parceiros”, diga-se, Bombeiros. Ora o “112 transfronteiriço”, que vai ser garantido pelos Bombeiros, pode correr o risco de, além dos portugueses da raia, tornar também os nossos vizinhos em portugueses/espanhóis de segunda.

Estas linhas foram escritas no dia em que decorre uma greve de técnicos das ambulâncias do INEM que, fazendo jus às palavras do senhor Lázaro, pelos vistos, só poderá fazer “perigar” os portugueses de primeira…

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