A janela escancarada dos números

Poder-se-ia dizer que é um assunto pouco falado e exposto com a crueza e o rigor que exige. Ao contrário, a situação deficitária crónica das associações de bombeiros é mais que conhecida, mais que identificada, mais que medida e mais do que prometida corrigir.

Ainda recentemente publicámos nesta Newsletter um quadro bem explicativo do INE em que se retrata essa realidade, crónica e anacrónica. Isso acontece, mais recentemente, pelo menos há mais de uma década. E todas as promessas feitas por sucessivos Governos para a corrigir saíram goradas e o défice não parou de crescer.

É um sufoco permanente para as associações, manter a operacionalidade, cobrir os custos e gerir o défice. Esta gestão é feita com contas bancárias caucionadas, créditos de curto prazo, avales de dirigentes, até com responsabilidade extensível às suas famílias, protelamento do pagamento de dívidas a terceiros, benfeitores e, no final, com o apoio das próprias autarquias.

Para quem está de boa-fé em todo esse processo isto não é forma de gerir seja o que for e muito menos associações com níveis de intervenção e responsabilidade acima de qualquer média no seio da sociedade.

Por norma, ou vício, o Estado pede aos bombeiros que façam aquilo para o qual não tem meios nem recursos sem cuidar à partida, inclusive, de obter atempadamente os valores necessários ao seu ressarcimento. Disposições burocráticas, agora até digitais, são as desculpas para os atrasos nos pagamentos, cuja gravidade o próprio Estado cuida de desvalorizar contando com o esforço permanente das associações.

Sem pôr em causa o carácter voluntário e humanitário de cada associação, hoje cada uma deve ser gerida como uma empresa, tendo em conta as responsabilidades em presença, até legais, e o padrão a que tem cada vez mais tem que corresponder como entidade patronal.

Até aqui, apesar de discursos empolados, nada foi feito para respeitar essa realidade. O tão falado contrato programa com o Estado e Autarquias deverá ser a solução, se encarado com vontade de sanar um problema de muitos milhões que se arrasta há mais de uma década.

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