A estrada não escolhe fardas. Mas o julgamento público, pelos vistos, escolhe.
Todos os dias há acidentes. Todos os dias há colisões. Todos os dias há segundos que chegam para destruir vidas inteiras. Ninguém está isento. Ninguém.
Mas basta uma viatura ter “Bombeiros” escrito de lado para aparecer logo a brigada dos tribunais de teclado. A investigação ainda mal começou e já há culpados. Ainda há uma vítima mortal, feridos, famílias em choque e uma corporação abalada, mas já há quem esteja com a pedra na mão. Porque esperar pelos factos dá trabalho. Ter vergonha na cara, pelos vistos, também.
Convém lembrar uma coisa, aquela pessoa ia em missão.
Não ia para a noite, não ia para copos não ia em passeio.
Não ia alcoolizada não ia a brincar aos bombeiros.
Ia a trabalhar, ia a servir, ia a cumprir uma função que muitos só valorizam quando lhes bate à porta.
É vergonhoso ver a facilidade com que se atiram mais pedras a quem tanto dá do que palmas. Ah, mas esperem… as palmas eram só no COVID. E “heróis” é só quando arde. No resto do ano é pau para toda a obra e ainda levam com o clássico “vão porque querem”.
Sim, vão porque querem, e ainda bem que vão….
Porque quando há fogo, dá jeito quando há acidente, dá jeito.
Quando há uma criança aflita, um idoso caído, uma família em pânico, uma casa cheia de fumo ou uma estrada cortada, dá muito jeito.
Aí ninguém diz “vão porque querem” aí já querem é que cheguem depressa…
Mas quando corre mal, quando a tragédia bate também a quem socorre, são os primeiros a ser mastigados em praça pública. Sem factos. Sem decência. Sem respeito!
Que se apurem responsabilidades. Sempre.
Mas uma coisa é exigir apuramento. Outra é transformar uma tragédia num circo nojento de comentários, acusações e ódio barato.
Hoje morreu uma pessoa, há feridos há bombeiros que vão carregar isto muito depois de a internet arranjar outro alvo para bater.
E talvez fosse bom que alguns se lembrassem disto antes de cuspirem sentença, um dia, pode ser um desses “que vai porque quer” a chegar primeiro quando a desgraça bater à vossa porta.
E nesse dia, curiosamente, já ninguém vai querer saber se ele foi porque quis.
Vai ser só urgente que ele chegue!
Agora que já proferiram a sentença, talvez sobre um minuto para o luto,..para a vítima para os feridos para a corporação. Para quem estava em missão e, num segundo, viu a vida partir-se ao meio.
Mas não. O luto exige respeito e o respeito, pelos vistos, não rende tantos comentários como o ódio.
Texto | Ariana Ribeiro
Imagem | Bombeiros Voluntários da Covilhã

