Visto com olhos de ver

O transporte de doentes não urgente tem sofrido tratos de polé, pela desconsideração a que foi votado pelo próprio Estado, pelas nuvens que volta e meia pairam sobre ele e pelo desrespeito marcante das estruturas de saúde pelos bombeiros. Juntem-se os atrasos escandalosos no ressarcimento aos bombeiros pela prestação do serviço.

A pretensa transparência que se pretendeu associar-lhe com a abertura de concursos e celebração de contratos, na prática, conduziu a um beco de recriminações mútuas, incongruências e conflitualidade pouco clara. Fica-nos a dúvida, para não dizer certeza, se os termos em que tudo isso tem sido conduzido beneficia, acima de tudo, os doentes.

O transporte de doentes nasceu há meio século com o SNS. Então, querendo o Estado abrir as portas da Saúde, socorreu-se dos bombeiros, por tratar-se da única entidade com espírito e capacidade para concretizar o desafio. Por isso, graças aos bombeiros, foi uma medida fácil e rápida de montar.

As associações equiparam-se com meios humanos e viaturas para concretizar o serviço praticamente em exclusividade, justificada pelo retorno que era para essas instituições.

Dispor de mais bombeiros nos quartéis entre pausas dos serviços de transporte de doentes, mesmo que episodicamente, permitiu, por outro lado, satisfazer o próprio socorro quando foi caso disso. À distância foi uma solução coxa, mas então a única possível para dar mais respostas.

Com a abertura do transporte de doentes a entidades privadas, de duvidosa obrigatoriedade comunitária, na prática, infligiu-se um pesado rombo nas associações de bombeiros que se refletiu globalmente na sua capacidade de resposta.

Recentemente, a Justiça condenou a prática existente entre uma entidade privada de transporte de doentes e um funcionário dos Hospitais de Coimbra. É voz corrente que tais situações se poderão repetir noutras paragens, com funcionários hospitalares até associados a empresas, sendo certo que assiste sempre a todos a presunção da inocência até prova em contrário.

Situações como esta e outras têm, de facto, denegrido o serviço de transporte. Importa por isso, em prol da transparência e da idoneidade de todos os seus prestadores, e em especial do benefício aos próprios doentes, encontrar o rumo certo. Rumo certo sem nuvens, sem “filet mignon” só para uns e casos complicados só para outros.

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