Há uma diferença enorme entre informar e lançar suspeitas para o ar com tempo de antena.

Há uma diferença enorme entre informar e lançar suspeitas para o ar com tempo de antena.

Quando se fala de bombeiros, de comandantes e de decisões tomadas em teatro de operações, não se está a comentar uma novela da manhã. Está-se a falar de pessoas reais, de carreiras reais, de instituições reais e de homens e mulheres que estavam no terreno enquanto outros estavam sentados em estúdio a comentar.

Um teatro de operações não é um parque infantil. Não é um sítio onde se anda de mãos dadas, nem onde todas as decisões são fáceis, simpáticas ou consensuais. É um local de pressão, risco, desgaste, responsabilidade e escolha rápida. Muitas vezes escolhe-se entre o mau e o menos mau, entre o urgente e o impossível, entre o que se queria fazer e aquilo que os meios permitem fazer.

E, como se tudo isto já não fosse duro o suficiente, ainda há quem venha de fora do TO alimentar intrigas, levantar suspeitas e transformar trabalho operacional em novela televisiva.

Foi dito em televisão nacional que teria existido um alegado desentendimento entre os comandantes dos Bombeiros Voluntários de Santo Tirso e dos Bombeiros Voluntários de Paços de Ferreira. A frase saiu, circulou, alimentou comentários e deixou no ar uma suspeita grave.

Só que há um detalhe que parece ter ficado esquecido, os próprios intervenientes já vieram desmentir publicamente essa versão.

Ambas as corporações foram claras, não houve conflito não houve tensão. Não houve desentendimento entre comandos. Houve cooperação, articulação, profissionalismo, entreajuda e missão. Exatamente aquilo que se espera de quem está no terreno a proteger pessoas e bens.

E é aqui que o problema deixa de ser apenas uma frase infeliz….

Porque quando se lança uma afirmação desta gravidade sem ouvir os visados, sem confirmar com quem esteve no terreno e sem garantir contraditório, isso não é jornalismo. É ruído. É julgamento em direto. É pegar no nome de duas corporações e atirá-lo para a praça pública como se reputações fossem material descartável.

Não são…

Jornalismo que é jornalismo questiona, investiga, confirma e confronta versões. Principalmente quando aquilo que vai ser dito em público tem peso suficiente para manchar nomes, pôr em causa comandos e levantar dúvidas sobre quem esteve a cumprir missão.

Uma afirmação destas não fica no ar sem consequências. Mancha nomes. Levanta suspeitas. Descredibiliza comandos. Alimenta conversas de café, comentários de sofá e teorias de quem acha que gerir um teatro de operações é o mesmo que opinar entre dois cafés.

E tudo isto numa altura em que o país mais precisa dos bombeiros.

Numa altura em que há operacionais exaustos, comandos sob pressão, corporações no limite, populações assustadas e um país inteiro a exigir resposta. A última coisa que os bombeiros precisam é de ver o seu trabalho transformado em intriga televisiva.

Os bombeiros já enfrentam o fogo, a falta de meios, a crítica fácil, a ingratidão, a memória curta e o costumeiro “vão porque querem”. Não precisam também de ver o seu bom nome chamuscado por afirmações sem sustentação.

O contraditório não é um pormenor. É a base. Antes de se dizer em televisão que existiu um conflito entre comandantes, ouvem-se os comandantes, ouvem-se as corporações, confirma-se, cruza-se informação e só depois se fala.

O resto não é notícia, é irresponsabilidade com microfone….

E quando se erra em público, a verdade também deve ser reposta em público, com o mesmo destaque com a mesma força com a mesma audiência.

Porque há fardas que não se mancham com rumores, há nomes que não se usam para preencher antena.

E há teatros de operações que merecem respeito, não intrigas vindas de quem não estava lá.

P.S.: Sim, posso falar com conhecimento de causa. Antes de tomar partido ou escrever sobre o assunto, falei com intervenientes. Não me limitei a ouvir uma frase em televisão e a fazer dela verdade absoluta. Chama-se confirmar antes de falar. Uma prática antiga, eu sei, mas ainda bastante útil quando se pretende não destruir o bom nome de ninguém por meia dúzia de minutos de antena.

 

Texto e Imagem | Ariana Ribeiro

 

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