Mensagem do Cardeal Américo Aguiar, Capelão Nacional da LBP, por ocasião dos 40 anos da Tragédia da Serra de Águeda

“Quarenta anos passaram desde aquela noite dolorosa de 13 para 14 de junho de 1986. Quarenta anos que não apagaram a memória, nem diminuíram a gratidão, nem silenciaram o eco dos nomes daqueles que, no cumprimento da sua missão e no serviço aos outros, entregaram a própria vida.

À data, eu era apenas um jovem adolescente. Recordo-me, contudo, do impacto que aquela tragédia teve no país e da comoção que atravessou tantas famílias e comunidades. A Serra de Águeda tornou-se então símbolo da coragem dos bombeiros portugueses, mas também da fragilidade da condição humana perante a força devastadora da natureza.

Hoje, ao evocarmos os quatro bombeiros voluntários de Anadia, os nove bombeiros voluntários de Águeda e os três cidadãos civis que perderam a vida, fazemos muito mais do que recordar uma tragédia. Prestamos homenagem a homens concretos, com rostos, histórias, sonhos e famílias, que assumiram até ao fim o compromisso de proteger a vida e os bens dos outros.

Como cristãos, olhamos para o seu sacrifício à luz das palavras de Jesus: «Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos» (Jo 15,13). Muitos destes homens partiram sem procurar reconhecimento, movidos apenas pelo sentido do dever, pela solidariedade e pela dedicação ao próximo. Por isso, a sua memória permanece viva e fecunda.

Neste quadragésimo aniversário, quero dirigir uma palavra de proximidade e oração às famílias das vítimas, aos Bombeiros Voluntários de Anadia e de Águeda, às corporações de todo o país e a todos quantos continuam a servir nas fileiras dos bombeiros portugueses. A dor da perda nunca desaparece totalmente, mas a memória agradecida transforma-se em esperança e inspiração para as novas gerações.

A história dos bombeiros portugueses é feita de gestos silenciosos de entrega, muitas vezes desconhecidos do grande público. A tragédia de Águeda recorda-nos o preço que, por vezes, é pago por aqueles que escolhem estar na primeira linha do socorro e da proteção civil. Por isso, a melhor homenagem que lhes podemos prestar é cuidar dos bombeiros de hoje, investir na sua formação, segurança e dignidade, e cultivar na sociedade o reconhecimento pelo seu serviço.

Peço a Deus que acolha no Seu abraço de misericórdia todos os que perderam a vida naquela noite trágica. Que conceda consolação às suas famílias e que fortaleça todos os bombeiros portugueses na nobre missão de servir.

Que a memória destes 16 homens permaneça viva no coração de Portugal. E que o seu exemplo continue a inspirar-nos a construir uma sociedade mais solidária, mais fraterna e mais atenta ao valor incomparável da vida humana.

Com gratidão, respeito e oração.”

† Cardeal Américo Aguiar
Capelão Nacional da Liga dos Bombeiros Portugueses

 

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