O elefante na sala

“Hoje vou meter o dedo num ninho de vespas. Talvez um dia conclua que há opiniões que deviam morrer connosco (tenho várias até). Mas fazer o quê? Não aprendo mesmo…

Lisboa, no que respeita à sua sub-região, possui, salvo erro, 45 Corpos de Bombeiros. No âmbito dos fundos do PRR e agora do PT2030, e apesar da enorme evolução e pressão operacional desta região, estes Corpos de Bombeiros ficaram de fora no reforço de equipamentos destes fundos.

Importa lembrar uma coisa: a esmagadora maioria destes Corpos de Bombeiros não recebe veículos do Estado central desde meados da década de 90, com exceção daqueles que vieram do INEM. Estamos a falar de quase 30 anos. Escadas, veículos urbanos, florestais, autotanques já tudo obsoleto ou abatido.

Criou-se uma espécie de dependência silenciosa das autarquias. Se os municípios não apoiarem, os Corpos de Bombeiros acabam a investir na sucata da Europa para conseguir manter os dispositivos minimamente operacionais.

O verão está à porta. A Área Metropolitana de Lisboa, pela sua densidade populacional e operacional, irá empenhar dezenas de veículos e centenas de Bombeiros em simultâneo em vários pontos do país.

A realidade é simples: ou os municípios decidiram investir, ou continuaremos a ver veículos com mais de 30 anos, encostados, a derramar gasóleo, com falhas elétricas e mecânicas e a sobreviver por esforço e improviso.

A gestão destes fundos tem sido tão desequilibrada que há regiões onde já foram atribuídos múltiplos veículos ao abrigo dos programas PRR e PT2030, enquanto outras continuam praticamente esquecidas.

Ao contrário do que aconteceu noutras zonas do país, não existe publicamente uma operação clara no Lisboa 2030 especificamente direcionada ao reforço de meios materiais para Bombeiros.

Exemplo disso é o Algarve: 64 veículos para 15 Corpos de Bombeiros.

E ainda existe o fundo de Timor, com 10 milhões de euros destinados aos Corpos de Bombeiros das regiões afetadas pelas tempestades. Um gesto de solidariedade que honra Timor. E que ao mesmo tempo devia fazer nos refletir sobre a incapacidade do próprio Estado português em responder às necessidades do seu dispositivo de socorro sem ajuda externa.

No fundo… é o que é.

Isto não é inveja dos outros camaradas, pelo contrário, é apenas equidade e talvez justiça. Agora, com muita calma, venham daí os “mimos”.”

 

(Imagem gerada por IA)

 

Texto e Imagem | Ricardo Correia, Comandante BV Loures

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