Ultimamente, as redes sociais parecem um campeonato de testosterona institucional. Bombeiros contra sapadores. Sapadores contra voluntários. INEM ao barulho. Guardas-florestais metidos na equação. Como se estivéssemos numa liga qualquer a disputar quem é “mais necessário” à sociedade.
Isto não é um concurso de popularidade. É proteção civil.
Esta medição constante de “quem faz mais falta” é intelectualmente pobre e operacionalmente suicida.
Os bombeiros são importantes? Claro que são. Em muitas terras são a cara do socorro, conhecem as ruas pelo cheiro, sabem quem mora sozinho, quem tem mobilidade reduzida, quem vive a 20 minutos do centro de saúde mais próximo. Há zonas onde o quartel é literalmente a linha entre o abandono e a resposta. Isso é um facto.
Mas isso não apaga a importância do INEM. Não diminui os sapadores-bombeiros. Não desvaloriza os guardas-florestais. Não apaga os GIPS. São funções diferentes. Competências diferentes. Enquadramentos legais diferentes. Missões que se cruzam.
Complementares. Não concorrentes.
E mesmo assim insistimos em transformar cooperação em rivalidade.
Quando começa a troca pública de acusações “A não pagou a B”, “B não fez o que devia”, “estes fazem mais”, “aqueles fazem menos” o que se está a criar é ruído. E ruído em emergência é perigoso. Porque a desconfiança que começa nos bastidores acaba por descer à linha da frente. E quando chega ao terreno, já não é conversa de Facebook. É articulação comprometida.
E isso prejudica quem? A população num incêndio ninguém distingue a cinza por entidade. No final, as fardas estão todas sujas do mesmo fumo. O cansaço não pergunta se és voluntário, sapador ou técnico de emergência. O risco não escolhe farda, mas o ego escolhe palco.
E há aqui uma ironia grotesca que ninguém parece querer assumir, todas as entidades precisam urgentemente de melhorar as condições dos seus operacionais. Todas. Sem exceção.
Condições degradantes de trabalho. Pouca valorização. Regalias mínimas ou inexistentes. Instabilidade estrutural. Estruturas fragmentadas. Operacionais a sair em silêncio. Cada vez menos gente a querer entrar. Cada vez mais gente exausta.
Estamos todos a remar contra a mesma maré, e ainda assim, no meio da precariedade comum, decidimos medir pilas institucionais.
É quase brilhante na sua estupidez.
Em vez de união para exigir melhores meios, melhores salários, melhor formação, melhor coordenação, escolhe-se a guerrilha pública. Escolhe-se a comparação infantil. Escolhe-se o ataque fácil.
Se a prioridade for o ego institucional, mais cedo ou mais tarde alguém vai pagar essa factura. E não será quem fez a última acusação inflamada.
Será quem ligou a pedir ajuda.
Cooperação não é fraqueza. É inteligência operacional.
E no socorro, inteligência salva vidas.
O resto é barulho de bastidores com cheiro a fumo mal apagado.”
Texto e Imagem, Ariana Ribeiro

