Não podemos continuar assim

“Estamos a viver um cenário extremo provocado pela Tempestade Kristin. Um fenómeno meteorológico severo que trouxe vento destrutivo, cheias, quedas de árvores, estradas cortadas, infraestruturas danificadas e populações em aflição. Mais uma vez, o país foi posto à prova. E, mais uma vez, quem esteve na linha da frente foram os mesmos de sempre: bombeiros, bombeiros e mais bombeiros.

Em cada ocorrência, em cada emergência, em cada chamada de socorro, lá estavam homens e mulheres que largaram o seu trabalho, as suas famílias e a sua vida pessoal para, voluntariamente, ajudarem a repor alguma normalidade no meio do caos. Vimos quartéis de bombeiros danificados, meios limitados, desgaste físico e psicológico, e ainda assim vimos bombeiros em grande número, incansáveis, a fazer aquilo que o Estado Português tantas vezes parece incapaz de garantir.

É impossível ignorar esta realidade: a Proteção Civil em Portugal assenta quase exclusivamente sobre os bombeiros. Quando há tempestades, incêndios, acidentes ou catástrofes, são eles a força armada da resposta imediata. São chamados heróis, elogiados nas televisões e nos palanques, aplaudidos nos discursos oficiais… mas depois, no dia seguinte, regressa tudo ao habitual abandono.

A Tempestade Kristin veio apenas expor mais uma vez o que já é estrutural: um sistema que depende do sacrifício constante dos bombeiros, mas que lhes oferece promessas em vez de soluções.

Promete-se profissionalização.

Promete-se carreira.

Promete-se reconhecimento.

Promete-se tudo e entrega-se quase nada.

A atribuição de 20 Equipas de Intervenção Permanente é apresentada como um grande avanço, como se fosse o reconhecimento tardio do esforço e da necessidade de um corpo mais profissionalizado. Mas, na verdade, é um remendo mínimo perante uma realidade gigantesca. É lamentável o que estão a fazer aos bombeiros: exigir cada vez mais, sem garantir condições dignas, estabilidade, meios e futuro.

E não venham agora procurar culpados fáceis.

Não culpem a Liga dos Bombeiros.

Não culpem as federações.

Não culpem direções, comandos ou associações.

O problema é político e institucional. Está completamente perdido na rua da Amoreira.

Os municípios precisam de agi junto do Governo.

Mas agir com consciência, sem agendas partidárias, sem cores políticas, sem jogos de bastidores. Medidas sérias, pensadas por cidadãos preocupados, não por estrategas eleitorais. Porque sem bombeiros não há resposta.

Não existe Proteção Civil sem bombeiros, nem municípios nem juntas de freguesia conseguem dar ao cidadão aquilo que ele exige quando tudo desaba.

Enquanto Comandante, sou obrigado a tomar medidas internas face aos estados de alerta. Tenho obrigações operacionais, responsabilidade sobre vidas, sobre equipas e populações. Peço aos meus bombeiros permanência no quartel, esforço máximo, disponibilidade total.

E o resto?

Quem responde pelo resto?

Quem responde pelo desgaste?

Quem responde pelo abandono?

Não critico as outras forças de proteção civil , talvez estejam bem. Talvez tenham carreiras estruturadas, meios garantidos, reconhecimento institucional. Os bombeiros continuam presos entre o voluntariado e a exigência de um profissionalismo que só existe nos discursos.

A Tempestade Kristin passou, mas deixou exposta uma verdade brutal: Portugal continua a depender da coragem de quem é sistematicamente esquecido.

Basta disto.

Chega de aplausos vazios.

Chega de promessas ocas.

Os bombeiros não podem continuar a ser tratados como heróis de ocasião e descartáveis no resto do ano.

Porque quando faltarem bombeiros, faltará tudo.

Um agradecimento ao Câmara Municipal de Tábua na pessoa do senhor Presidente Dr Ricardo Cruz , por nunca abandonar os Bombeiros do concelho de Tábua.

Ao Comandante Sub-Regional Carlos Luis Tavares, por ser um VERDADEIRO COMANDANTE.

Rui Leitão

Comandante dos Bombeiros Voluntários de Tábua “

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